sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sobre o "yeísmo"


Primeiro, uma breve análise fonética:

“VELHO” = cinco letras, quatro fonemas: V – consoante constritiva fricativa + E – vogal aberta + LH (/l/) – consoante constritiva lateral + O (/U/) – vogal reduzida.

Ocorre que em determinadas falas do português não-padrão o som consonantal de ‘LH’ – representado por /l/ (lambda) – simplesmente não existe, assim como não existe no português-padrão a consoante ‘TH’ típica do inglês (como em thing, ou como no ceceio, a deficiência da fala em que se pronuncia o S com a língua entre os dentes). Assim, não é raro ouvir-se por aí a pronúncia véio em vez de velho. Hoje em dia a garotada costuma se tratar por véio, ao que torcem o nariz os puristas, mas o uso deste yeísmo – como ao fenômeno se refere a linguística – é mais antigo. No Cuitelinho, por exemplo, o uso do yeísmo é comum (ver Plural: uma redundância?). Na canção, troca-se ‘falha’ por faia, ‘espalha’ por espaia, ‘batalha’ por bataia, ‘parentalha’ por parentaia e 'atrapalha' por atrapaia, o que contribui para a riqueza lírica do poema e traduz fielmente o jeito de falar natural de uma região e de um povo.

Todavia, e como qualquer outro fenômeno linguístico, o yeísmo também possui a sua lógica. Antes de ser um efeito (ou defeito, para os puristas) regional e popular, é notadamente histórico, fruto da evolução natural da língua, tal como ocorre no rotacismo e na supressão dos plurais. No castelhano, também derivado do latim vulgar, a conversão do fonema /l/ em ‘I’ é comum em certas regiões da Espanha, na América Central e Caribe, bem como em muitos países sul-americanos. Nessas regiões e países, a palavra caballo, cuja pronúncia dita padrão é ‘cabalho’, converte-se em ‘cabaio’. Muito embora os habitantes da região de Castela, a ‘pátria’ do castelhano, considerem tal jeito de falar como um “defeito”, na França a evolução se consolidou. Na pátria de Baudelaire, Balzac e Flaubert o ‘LH’, lá escrito ‘ILL’, definitivamente cedeu seu espaço para o ‘I’. Observe-se o quadro comparativo:

(modificado de Bagno, Marcos; A língua de Eulália. Contexto, 2008)

Sob o ponto de vista estrutural linguístico, Heinrich Lausberg explica o fenômeno na língua francesa:

“Por afrouxamento e, finalmente, abandono da oclusão central, forma-se do /l/ (difícil de pronunciar por causa da elasticidade reduzida do dorso da língua) muito naturalmente a fricativa /y/ como em francês, espanhol popular e dialetal”.
(LAUSBERG, H. Linguística românica. 2ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981. p. 71. In: BAGNO, Marcos. A língua de Eulália. Contexto, 2008, p. 59.)

Trocando em miúdos, é mais fácil pronunciar ‘I’ do que ‘LH’. E como ambos os sons são produzidos com o dorso da língua no palato, ocorreu, naturalmente, o fenômeno da assimilação, isto é, a proximidade da estrutura fonética combinada à comodidade, converteu /l/ em /y/ no idioma francês, oficialmente.

Qual seria, então, o motivo para que o mesmo não ocorra na Espanha ou no Brasil, isto é, a oficialização do fenômeno na língua formal? Para essa pergunta a resposta não é linguística, mas histórica, política e social: na França dos fins do século XVIII, um importante evento retirou do poder a aristocracia, a nobreza e o clero, adeptos do LH como marca de distinção. Os burgueses, até então ridicularizados e desprezados por causa da sua pronúncia ‘errada’ – exatamente como ocorre no Brasil com os falantes do português não-padrão – subiram ao poder. Daí até a extinção de uma forma e a fixação da outra, poucas décadas foram necessárias.


Sobre a causa do yeísmo no português brasileiro, diz-nos, ainda, o profº Francisco da Silveira Bueno:

No segundo volume dos Estudios Dedicados a Menéndez Pidal, Madri, 1951, Amado Alonso subscreve longo e documentado artigo sob o título "La LL y sus alteraciones en España y América". Trata, nada menos, da substituição do fonema palatal lh pelo y [folha, foya; mulher, muyer] fenômeno denominado yeísmo. Depois de muito escrever e documentar, concluí que tal substituição é própria do castelhano, é um fenômeno hispânico, sem influência alguma indígena, no sentido de substrato. Com esta conclusão de Amado Alonso não concordamos porque o yeísmo existe no Brasil e não existe em Portugal. Se fosse, fenômeno hispânico, isto é, da Península Ibérica, o português deveria apresentá-lo. Temos de explicar por outras causas e entre nós tal causa não é a influência negra, como pensa Renato Mendonça [Influência do Negro no Português no Brasil, p. 184], mas a do tupi que não possuía nem l nem lh, mas conhecia e empregava à larga o y: yaguar, yaguaron, yucá, yuru que o português substituía por j: jaguar, jaguarão, jucá, juru. Os Estados do Norte do Brasil, especialmente, o da Bahia, que maior contingente receberam de negros, são justamente aqueles que desconhecem o yeísmo. S. Paulo, Paraná, Minas, Mato Grosso e Goiás, que tiveram quantidade mínima de pretos e alguns até nem sequer conheceram a escravatura africana, conhecem o yeísmo em sua linguagem rústica. Não há pois fundamento algum para atribuir-se ao elemento negro o yeísmo do Brasil.

[Francisco da Silveira Bueno, Estudos de Filologia Portuguesa, 4ª ed., editora Saraiva, SP, 1963, pp. 239-240]
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