sábado, 5 de março de 2011

A ambiguidade como recurso de construção da mensagem

Denatran apela para "pegação" em campanha educativa para o Carnaval

Prof. Diógenes Afonso

O Denatran [Departamento Nacional de Trânsito], órgão subordinado ao Ministério das Cidades, resolveu estimular a "pegação" neste carnaval. As cidades-alvos foram Recife, Rio de Janeiro e Salvador que, como se sabe, são polos carnavalescos para lá de animados. 

Quem já começou a se indignar com a informação, recomendamos muita calma, pois o propósito do Denatran é, por assim dizer, nobre. 'Pegação" ["A melhor pegada", no texto da campanha] não tem o sentido que, convencionalmente, se atribui. Não significa se relacionar sensualmente com alguém ou mesmo bolinar outro[a]. "Pegação" é pedagógico e pretende conscientizar motoristas a se valerem de táxis, ônibus e caronas neste período momesco, evitando, desse modo, acidentes de trânsito na volta para casa ou na ida para os polos de  animação.  

Interessante notar que a propaganda institucional veiculada pelo órgão fez uso, a partir da expressão "A melhor pegada", da ambiguidade [1] como recurso linguístico para convencer os foliões e as folionas [o feminino "foliã", de largo uso na comunidade linguística brasileira, não é "indicado" pela norma ortográfica oficial vigente. Isso não tem a menor importância no estágio de análise que ora desenvolvemos].

A campanha "SOU LEGAL NO TRÂNSITO" para o período carnavalesco apoia-se  na ambiguidade como  recurso expressivo auxiliar, a fim de fazer com que os foliões "criem juízo" e não aliem álcool com direção. Para isso foram confeccionados "manuais", wallpapers, aquadoors, camisetas, painéis e outras peças [ver imagens abaixo] com o objetivo de disseminar a orientação. 

A ambiguidade percebida nas diversas peças intenciona atingir o imaginário do folião[ona] enquanto destinatário[a] por excelência, já que, ao apelar para o componente sexual -  implicitado no campo semântico da expressão "A melhor pegada" e na apresentação de modelos masculino e feminino abraçados ou não -, ativa, subliminarmente, uma certa "interdição" para o ato. Diríamos, para os atos: a "pegação" no sentido sexual e a irresponsabilidade de dirigir após a ingestão de álcool. 

Claro deve ficar que só a abordagem global das peças - envolvendo as várias linguagens [verbal e não-verbal] - e o conhecimento de mundo do receptor desfazem a ambiguidade e proporcionam uma leitura que pretende expressar uma vontade: a de que não haja acidentes automobilísticos por imprudência e irresponsabilidade. 

Por essa ótica, "A melhor pegada" assume um sentido educativo, pois sugere o uso de outros meios de transportes, de certo modo mais seguros.

Pode-se dizer, então, que a eficiência comunicativa se realiza nesta campanha pelo uso dos recursos que a língua oferece, isto é, pelo uso da ambiguidade como recurso de construção da mensagem.


Clique nas imagens para ampliá-las.







_________________________

[1] É o que se pode chamar de dupla interpretação gerada por fatores como polissemia  lexical, conhecimento linguístico e cultural do destinatário, contextualização.

3 comentários:

Ester Alves disse...

Estamos sempre aprendendo com seus textos e sua sensibilidade professor
DiaAfonso.

emacalves.elan@gmail.com disse...

Estamos sempre aprendendo com seus textos e sua sensibilidade professor
DiaAfonso.

DiAfonso disse...

Olá, Ester!

Obrigado pelo comentário, mas gostaria de dizer que este é o tipo de comentário que me deixa ruborizado... rsrs

Grande abraço!

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